sábado, abril 12, 2008

Objectos(IV)



Não és culpado de nada. Passas, aliás, pela vida armado disso, dessa tua inimputabilidade, dessa tua ausência de culpa. Como se andasses num mar branco de inocência e a vida não te tocasse, como se não vivesses aqui. Desculpa se não consigo fazer isso, se tenho de ser assim como sou e ver as matizes todas às coisas, perdoa-me não consigo, achei que sim, mas não consigo a inimputabilidade branca de que te arrogas. A vida seguirá como seguir, mas não há nós para atar as minhas emoções nesse nó branco, nesse nó cego que sempre pediste de mim.

sexta-feira, abril 11, 2008

Objectos (III)

São as coisas que nos mantêm vivos que nos enchem de perplexidade. Ou de dor.Ou de espanto. São as coisas de todos os dias que são quase insuportáveis. A dor, como uma coisa viva, é como eu a caminhar e a ser, irreprimivelmente ser, há escadas para subir e espaços e contas, o toque e a textura das coisas nas palmas das minhas mãos. As coisas vivas que nos vivem e que nos ferem

quinta-feira, abril 10, 2008

Objectos (II)




Comemos, bebemos e, na verdade, estamos mortos, tão mortos que as memórias da vida é como se nos viessem através de ecos marítimos pela àgua espessa das rotinas. Andamos,falamos e estamos mortos, com a memória da vida perdida nos dias longuíssimos da infância, onde o sol brilhava perenemente e as caras sujas nos roubavam,pouco a pouco, a inocência primordial.

Com os dias que temos, traçamos as linhas das impossibilidades, não há caminhos para fora.

domingo, abril 06, 2008

Objectos(I)


Que preço pagas pela tua consciência aplacada? Nada caro, nada mais caro que um ou outro almoço ou a gasolina do carro, nada mais caro que um objecto inútil ou um gesto inesperado. Não julgues que me escapa a violenta ironia de sermos os dois valorizados por baixo, como artigos inferiores. Afinal não dás mais pelo amor que um tempo furtivo, nada mais pela lealdade que uma volta por sítios discretos onde não te conheçam nem o feio segredozinho que me permiti ser. Valho tanto como um silêncio de dois segundos ao telefone, valho tanto como um mail de cortesia. Valho tanto como o teu toque em fuga, rejeitada. Tão pouco como o nojo, ou o desgosto ou a culpa do amor que não pode ser retribuído. Não preciso de coisas. Nunca mais, para ninguém, estarei em saldos.

quinta-feira, agosto 16, 2007

Radiografia


Está sol lá fora e a mulher mede-me por todos os lados. Ultimamente a paranóia deixa-me ver assim estas coisas de sombras em todo lado, mesmo onde eu sei que não há sombras. Porque não entra por aqui, pede-me, porque não passa e é só um minuto, tire a roupa, sim, tire a roupa. Fico ali encostada como se fosse uma coisa qualquer, como se conversasse ou comesse madalenas, se estivesse numa literária. Ah, mas vem alguém. Respire. E sobre a minha pele gelada o metal e o vidro e alguém me vê por dentro alguém me mede. Se encontrarem o coração por aí dentro, mandem-no para casa. Há meses que anda perdido e, mesmo não me tendo feito grande falta é sempre um adereço bom para se usar, um daqueles toques que, parecendo que não, dá outro ar. Se o virem aí dentro, mandem-no para casa.

segunda-feira, agosto 06, 2007

Arqueologia


Emergem à superfície os bocados dos gestos do passado, das memórias, em forma de detritos e de pedaços desconexos. Vestígios. Do presente, do tempo que agora é fica a estranheza perplexa das coisas que se perderam e se partiram presentes naqueles bocados, a tristeza vaga de uma certa noção de finitude. Nada permaneceu. E de certa maneira, tudo foi melhor assim, ninguém conseguiria então olhar para o presente, prever o destino das estradas que nos conduziram até aqui. O que se reconstruir daquilo será fechado em caixas e catalogado, longe das mãos que o tocaram, o que se reconstruir será objecto estranho e preso ao seu tempo, não contará. Poderemos, talvez, olhar com uma saudade, mais pressentida que sentida, das coisas que então foram, mas não voltará a ser presente. Estamos presos, estanques, no tempo que somos e nos espaços que somos. Vivemos sem a falta do que se perdeu, vivemos sempre. Dos passos que nos precederam e dos gestos em camadas sucessivas só sentimos a vertigem de olhar para baixo e para muito fundo. Nada reerguerá nada, nada o poderia fazer. Vivemos sempre melhor em frente e sem a noção de história. É mais fácil.

quarta-feira, julho 25, 2007



Ninguem será salvo. A casa continua a crescer e a expandir-se como um tumor, uma coisa má nas suas salas vazias e nas suas paredes altas, a pulsar como uma coisa viva nos corredores intermináveis de portas barradas. Ninguém foi salvo. A menina pequena corre pelas salas que não reconhece, corre pelas salas da casa monstruosa e devia conhecê-las. Está perdida. As palavras viciosas infestam as paredes, corroem os móveis e tudo se esfarela. Se as prendem por uma asa negra ou por pela cauda longa e maleável, agitam-se assustadas e suicidam-se, ferrando-se a si mesmas como os escorpiões cercados pelo fogo. É preciso deitar abaixo a casa que se expande, é preciso um tudo novo. A menina pequenina cresce pelos cantos, como a casa, sem nunca chorar nas salas desertas, pisa as palavras pelas asas escuras. Algo de grave acontecerá, ou a casa ruirá com estrépito, com as palavras a chiar esmagadas pelo peso de tudo que cai e ninguém será salvo.