sexta-feira, julho 20, 2007

Chungking express


Levo comigo os óculos de sol, nunca se sabe quando faz sol, ou quando preciso de chorar, ou quando preciso de me diluir na paisagem como se cá não estivesse. Levo comigo o impermeável. Nunca se sabe quando preciso de um conforto, quando fará frio e nenhuns braços me aquecem. Levo comigo os meus sapatos altos, porque as mulheres precisam sempre daquele travo de fragilidade, das plataformas que as elevam da normalidade. Poucas vezes haverá quem nos descalce com cuidado no nosso sono, poucas vezes haverá quem vigie enquanto dormimos para que descansemos, para que fiquemos em paz. Os cigarros e a peruca loira, impossivelmente loira completam o meu disfarce. Sou uma diva de film noir, fatal, não sabias? Tem cuidado contigo, tem cuidado contigo, nós as mulheres fatais somos assim, nunca se sabe quando te calo a boca com um beijo, nunca se sabe quando te calo a boca com um tiro num sítio escuro e me afasto nas sombras e no fumo do meu cigarro, nunca se sabe quando vou contigo para casa e te deixo velar enquanto durmo. Nós as divas somos assim. As camadas por baixo de tudo isto, todas as fragilidades, todos os erros não me importam. Defino-me assim, um tigre de papel, uma máscara. Nada mais existe para além disto.

sexta-feira, julho 06, 2007

Tântalo


Tento chegar ao fruto desejado, áquele pomo dourado de todas as promessas de felicidade perfeita e completa e lá não chego, nunca chego. Toda a vida defenida assim, a preto e sombra de todos os sítios onde não chego e tudo o que não tenho, a amargura de todos os quases que nunca são nada senão isto que parecem: sombras.

terça-feira, junho 26, 2007

Penélope tecendo



Os dias definem-se na rotina previsível do acto de tecer, confortante e familiar de todos os gestos repetidos cem, mil vezes. Ulisses virá, um dia, depois de todos os gestos desfeitos de trama que se esbroa, depois de tantas rugas de tempo acumulado em tapeçaria e depois de tantos, tantos pensamentos presos na tapeçaria, demasiado vagos ou irrelevantes para se soltarem em palavra.

segunda-feira, junho 11, 2007


Não olhes para trás, para o lado, não vale a pena. Estamos onde queremos estar, mais nada.

quarta-feira, junho 06, 2007

Abraço


O amor define-se no perímetro apertado de braços onde não tenho espaço, onde não é o meu lugar. Há abraços que ficam melhor como parecem: por dar.

terça-feira, maio 22, 2007

Comigo



Edward Burne- Jones, Pan e Psyche


Fica comigo um bocado, um momento, fica comigo neste momento enquanto preciso de ti e me fazes falta, fica comigo. Prometo pôr de lado o amor, prometo pôr de lado o desejo e a necessidade e todas as coisas que não queres nem precisas, fica. Não te falarei do medo e dos anseios, do orgulho que não me deixa dizer-te que te quero e preciso, que me fazes falta.
Fica comigo até à escuridão imensurável da solidão da noite, fica para lá dela, até à luz e à quietude branca de não querer mais nada. Fica o que puderes ficar, o que quiseres ficar, até onde suportares a proximidade silênciosa do nós que não se diz. Fica.

terça-feira, maio 08, 2007



Memorizo-te pelo tacto, como uma cega, quando estás perto, e reconstruo as partes de ti quando estás longe através dos olhos e da memória. Só assim te guardo comigo, só assim estás em mim que não de uma forma menos vaga, mais concreta. Existes em mim como fumo quando te queria carne e sangue, quando te queria verdade concreta como as coisas que se vêm e se sentem e se tocam e se cheiram e se provam. Tomo de ti aquilo que posso, como uma cega, aquilo que me deixas.