quinta-feira, outubro 19, 2006

Centopeia


Quantas vezes podes tocar-me sem que me dobre e me feche como uma bola de pés e mãos, escondida, impenetrável? Fecho-me assim, como uma porta, um cofre. Aqui não me podes tocar, não me podes tocar mais.

Com o tempo ficamos assim, cheios de defesas e de muros, sem pontes levadiças. Com o tempo ganhamos defesas e dentes, picos, fechamo-nos ao toque em novelos, com o tempo aprendemos a secar as lágrimas e andar, apanhar os cacos do que sobrou e colá-los, definitivos. Ficamos inquebráveis. Com o tempo já nem a memória da carne vulnerável temos, todas as coisas se apagam que não sejam os picos e os pés, cresceram-me mil pés de fuga, cresceram-me aneis em espiral de rosa fechada de defesa.

Enrolo-me em bola impenetrável. Só transparece no escuro o fluorescente amargo da solidão fechada em círculo duro de âmbar, o fluorescente cítrico de todas as saídas de emergência que inventamos para nós mesmos.

quarta-feira, outubro 11, 2006

Laura


Deste-me a eternidade em todas aquelas que me seguiram: para todas tenho a dimensão dos bichos papões e das coisas sombrias, o ídolo de pedra a derrubar, lembrança de tempos que ficam melhor esquecidos, enterrados debaixo dos lençóis quentinhos, a dimensão do pânico nocturno de sombras ameaçadoras.Chegam até a mim pelos tus caminhos, saltam o muro onde puseste o letreiro a letras gordas: proibido, sabias que o fariam. Viveria sem ti nos meus dias, perfeitamente, não fosse essa tua mudez teimosa de coisa definitiva que as traz até mim, tentando encontrar menos, ou mais, tentando encontrar as tuas razões secretas para as recusas.Desaponto-as, eu sei, nada de santas ou martírios aqui, apenas o arrastar de um longo não, de um compridíssimo nunca mais que se estende como o teu muro de indisponibilidade, não há nada em mim que lhes possa justificar a minha dimensão de totem, de símbolo ameaçador das coisas que não podem ser. Estou barricada pelas presenças que me prescutam, que me catalogam, obrigada a construir-me em recusas e partidas, mesmo depois de ter partido, de ter perdido. O facto de não estares comigo é só um pormenor ínfimo, um pequeno acidente de percurso. Saberão elas que, também para mim havia sombras e muros e o letreiro a letras gordas a proibir mais do que prometia? Saberão a minha dimensão polida e redonda de conta de rosário, com mais atrás e mais à minha frente, a minha secreta, mas verdadeira humilhação de não ser especial, definitiva?Deste-me a dimensão de sombra vampírica a todas as que me seguiram, nunca perceberei porquê. E estou tão cansada, tão cansada de muros em recusa, de viver em adeus para conseguir um pouco de paz. Não haverá paz para mim de capítulo fechado, nunca o permitirás. E em nome de quê? Dos teus próprios fantasmas, se calhar. Estou tão farta de te servir de escudo, de te servir de arma, de te servir de desculpa, não quero a eternidade que me dás. Também o nosso amor foi finito e imperfeito, cheio de silêncios e desculpas, também para mim havia terrores nocturnos e bichos papões, também eu me agarrei ao sono que não chegava, rodeada de sombras por todos os lados. Também, nos tempos que te amava, havia para mim outras presenças.A única coisa que desejaria era a paz do ponto final, a paz da vida que se segue sem ti. Nunca me quis eterna. E no entanto, aqui estou. Vivo em ti nas mentes das que estão contigo, umas após outras. Quando perceberás que chega, que não vale mais a pena? Liberta-me para te poderes libertar.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Note to self

Ah, como as coisas doem menos se nos rirmos delas, como nada tem importância. Todas as coisas se acabam assim, em farsa, um alívio cómico de todo o pathos, uma piadinha seca e inteligente. Uma volta de inteligência até ao cómico em que as coisas perdem a sua importância. Nada mais te tocará, nada mais poderá fazê-lo, uma bolha de gás ácido de riso e de auto-crítica, uma volta por cima a partir do próprio rabo no chão, o riso da própria dor. Nada mais te poderá tocar assim, nunca nada mais te irá fazer pior que este riso. Nada.

sábado, setembro 23, 2006

Quem acredita em amor à primeira vista nunca deixa de procurar



Larry-A Anna dise-me que o teu gajo escreveu um livro. É bom?

Alice- Claro.

Larry- É sobre ti, não é?

Alice-Partes de mim.

Larry-Ah sim?E que parte deixou de fora?

Alice-A verdade.

Closer

quarta-feira, setembro 13, 2006

In the mood for love

Quando se tem um grande segredo conta-se a um buraco e empareda-se, dali não sai mais. Quando se tem um segredo carrega-se com ele entre as mãos fechadas para que não caia e não se parta e não se desvaneça, como os beijos ou as mãos dadas há muito tempo esquecidas. Quando se tem um segredo costura-se a boca e os olhos para que não saia, desprotegido, para que não fuja. É para sua própria segurança. Quando se tem um segredo não há mãos que cheguem para o segurar na alma, bocas que cheguem para o calar. Quando se tem um segredo está-se preso a ele, arrasta-se o segredo como as grilhetas, como uma monstruosa excrecência agarrada ao corpo, somos siameses do segredo e ele nosso, juntos pelas partes vitais, um só coração, uma só alma. Quando se tem um segredo verdadeiramente grande somos pobres com o ouro enterrado no quintal, miseráveis do peso avaro escondido, com medo que e veja a sua luz dourada através da terra e dos vermes. Quando se tem um segredo, é-se responsável por ele como por um filho que cresce e cresce e cresce fica maior que nós. Quando se tem um segredo não se é livre, não pode ser, nem feliz, não se tem paz. Quando se tem um segredo conta-se a um buraco e empareda-se para que não saia mais. Não quero mais nenhum segredo.

terça-feira, setembro 12, 2006

Vertigo


Em mim possuía as sementes da minha própria derrota. Sou inferior à minha sombra, à minha ideia, à ideia que fazes de mim. Como é fútil, tentei lutar e saí derrotada por ela, nunca a superarei. Não me ames pelo beirame, disse-te, Joane, como o do poema, mas é tudo um exercício fútil. No mundo a preto e branco dos sonhos a minha sombra vem por detrás de mim, à traição e desfere o golpe. Não a posso ferir, pois não existe, não a posso derrotar, porque está inatingível, não poderia crescer até ao que ela é, porque não é humana. Não bebas as minhas palavras, disse-te a ti, Joane, como o do poema. Estás bebâdo delas. E elas permanecem enquanto eu cresço e mudo e envelheço, um corpo-caroço da alma que te interessa, um resíduo. Derrotei-me a mim mesma porque me amas em efígie. Amas-me em metalinguagem. Amas-me pelo beirame, Joane, para lá da minha vulgaridade, da minha humanidade, das minhas fraquezas. Viverei sempre em ti quando nunca aspirei a mais senão viver contigo. Serei eterna como um símbolo ou uma deusa, mas não serei amada. Amas-me pelo beirame, Joane, por aquilo que construo e as palavras que alinho. Amas-me pelas sombras. Nunca percebeste: de ti não quis a eternidade, mas a presença. Não a abstracção do somewhere, some place, there's a place for us. Não viste, Joane como sou viva e real, amaste-me pelo beirame, Joane. E isso nunca te poderei perdoar.

sexta-feira, setembro 08, 2006



Não é o fim. Depois de tudo feito, dizes, depois de tudo dito. Foi só, como se diz, um episódio da novela mas a coisa continua, tem séries como o caraças não sabias, todos os anos há casting, dos actores antigos ninguém se lembra, vão para fora fazer férias e filhos e já não fazem parte da trama. Foi só, qual é a palavra, um interlúdio, uma daquelas coisas que a bem dizer não foi nada, no plano geral das coisas é um nó na tapeçaria, bem disfarçado ninguém vê, é como se nunca estivesse lá, não sabes, esse é o destino das coisas que não se vêem, esquece-se, desaparecem, como diz o ditado, longe da vista longe do coração. Não, se calhar não conheces mesmo, esqueço-me sempre como és, mas se não sabes fixa-o bem e guarda-o bem guardado, pode ser que te faça falta um dia, isto nunca se sabe, guarda que não queres e acharás o que é preciso, e este é outro que podes guardar, dois pelo preço de um, que eu estou uma mãos largas, bem disposta até a luxo de ser generosa me dou.
Nunca será fim, ou melhor será mas será para mim sozinha e só eu verei as letras brancas no ecran preto: the end e garanto-te que por essa altura o tudo dito e tudo feito já nem me lembrará, como é que se diz, foi um devaneio que não chegou ser nada. Chegaste a contar a alguém como não foi nada? Não acredito, mas tu é que sabes, whatever blows your skirt up, o que te faça feliz eu assino em baixo, para mim é-me irrelevante e, como te digo hoje, estou uma mãos largas de tão generosa, hás-de ser sempre o mesmo e eu não, siga o próximo episódio da novela e os amores e desamores. Posso bem com eles, fui feita para viver no mundo de carne e osso, tu nunca passas das duas dimensões onde não há toques nem sorrisos nem cheiros, mas whatever gets you through the day, se te consideras um enviado divino é problema teu e do teu psicólogo, como tu costumas dizer já tudo dito e tudo feito e siga para bingo. Mas, e não te esqueças, não é o fim.
Morrer de amor já não se usa, viver ainda muito menos mas se queres achar que sim que estou desmilinguida a morrer tuberculosa como a Traviata feel free, watever bows your horn, ninguém é inesquecível nem eu, como tu bem sabes, siga para bingo. Mal posso esperar pela novela a noite, ver próximo episódio mas para ti sou generosa, whatever rings your bell, be my guest, baby.