terça-feira, junho 26, 2007

Penélope tecendo



Os dias definem-se na rotina previsível do acto de tecer, confortante e familiar de todos os gestos repetidos cem, mil vezes. Ulisses virá, um dia, depois de todos os gestos desfeitos de trama que se esbroa, depois de tantas rugas de tempo acumulado em tapeçaria e depois de tantos, tantos pensamentos presos na tapeçaria, demasiado vagos ou irrelevantes para se soltarem em palavra.

segunda-feira, junho 11, 2007


Não olhes para trás, para o lado, não vale a pena. Estamos onde queremos estar, mais nada.

quarta-feira, junho 06, 2007

Abraço


O amor define-se no perímetro apertado de braços onde não tenho espaço, onde não é o meu lugar. Há abraços que ficam melhor como parecem: por dar.

terça-feira, maio 22, 2007

Comigo



Edward Burne- Jones, Pan e Psyche


Fica comigo um bocado, um momento, fica comigo neste momento enquanto preciso de ti e me fazes falta, fica comigo. Prometo pôr de lado o amor, prometo pôr de lado o desejo e a necessidade e todas as coisas que não queres nem precisas, fica. Não te falarei do medo e dos anseios, do orgulho que não me deixa dizer-te que te quero e preciso, que me fazes falta.
Fica comigo até à escuridão imensurável da solidão da noite, fica para lá dela, até à luz e à quietude branca de não querer mais nada. Fica o que puderes ficar, o que quiseres ficar, até onde suportares a proximidade silênciosa do nós que não se diz. Fica.

terça-feira, maio 08, 2007



Memorizo-te pelo tacto, como uma cega, quando estás perto, e reconstruo as partes de ti quando estás longe através dos olhos e da memória. Só assim te guardo comigo, só assim estás em mim que não de uma forma menos vaga, mais concreta. Existes em mim como fumo quando te queria carne e sangue, quando te queria verdade concreta como as coisas que se vêm e se sentem e se tocam e se cheiram e se provam. Tomo de ti aquilo que posso, como uma cega, aquilo que me deixas.

segunda-feira, abril 30, 2007



Sinto a tua ausência como a náusea de um navio em alto mar: a mesma solidão imensa, a mesma impotência física contra o corpo que se revolta e chama e anseia pela terra firme debaixo dos pés e a casa onde se chegará mas que não se vê. Sinto a maré, a mesma maré implacável que não se consegue parar, nem evitar, nem fugir.
Sinto a tua ausência como uma náufraga, nada chega nem parte, só a imobilidade do silêncio e o amor, o amor que, improvável, resiste a tudo e me rodeia, como o grito das gaivotas e o sal.

sexta-feira, abril 20, 2007

Time Capsule



Enterro o meu coração numa caixa estangue. Aos que o encontrarem no futuro a mensagem: usado, quase novo.