segunda-feira, julho 13, 2009

Objectos XIV



Não joguemos os jogos da culpa de dos desgostos, hoje não, mais não. Tirando a familiaridade, que mais haverá, que bom sairá disto tudo? Sabemos, sabemos tão bem o que temos, as peças caídas e impossíveis de mexer sem fazer cair o mundo sobre nós, as pecas contadas e recontadas: não há, não pode haver vencedores.
Quisera a perícia de continuar, mas não mais, não quero mais. Nem pena nem hesitações nem ramos verdes de oliveiras em pombas, antes deixar que tudo se inunde e mais não seja, antes desviar-me da via dolorosa deste jogo cruel. Chega.
Tenho desviado, com cuidados de Atlas com o mundo às costas, todas estas cadeias intrincadas, todos este nós, mas não há mais energia, nem para o ódio, nem para a raiva, nem para a esperança, nem para o amor. Só o hábito mantém as peças agregadas, só o saber de cor o que acontece a seguir me mantém de olhos fixos na mesa, concentrada. Mas sabemos os dois como não vale a pena.
Eu sei como o amor, o meu amor funciona com os avanços e recuos das marés, mas tem de acabar, tem de ter um ponto final. Ah, não mais fragilidades, não mais pontos fracos que me deixam estúpida e fraca, que me deixam ruínas para reconstruir, não mais. Das peças de Mikado cheguemos ao consenso do impasse, não ganho, não ganhas, nenhum poderá dizer que sai incólume. Mas mais jogos de culpa e desgostos, de redes de segurança não. Basta.

domingo, junho 28, 2009

As virtudes


Quando as esperanças são estiletes, finos, cruéis estiletes a acariciar-nos a pele, como manter em nós a fé, como continuar? Quando nos fere como a água os sedentos, como a pena aos orgulhosos? Antes a libertação de não ter, querer ou esperar nada, a libertação de não ter corações ou âncoras a segurar-nos ao mundo dos outros. Antes a libertação de não esperar mais.

terça-feira, abril 21, 2009


Leva-se a vida com passos a subir, em esforço.

sexta-feira, abril 17, 2009




A criança que fui corre ainda pelos bosques negros, tropeçando ainda em todas as pedras, cheia ainda dos terrores inocentes de bichas-de-sete-cabeças e de fados, dos sétimos filhos de sétimos filhos fadados a correr o mundo, transmutados em bichos comuns, porcos, cabras, lobos. Nesse imaginário podemos ainda, contra o mal, usar os talismãs inocentes segredados no recreio, cruzar tesouras à entrada, espalhar sal marinho à nossa volta e batermos na madeira, agarrar com as duas mãos os ramos do domingo de páscoa, a boca em cruz e sangue partilhado dos juramentos, as mãos dadas contra a trovoada e Santa Bárbara em esplendor de cabelhos molhados para fazer chover. É tudo tão simples ainda, para ela, que ainda não caíu na toca do coelho, que ainda conhece todas as certezas de cor e salteado, que ainda pode responder pelo bem e pelo mal e tudo se pode guardar tão simples, como seixos coloridos, penas, flores secas e dentes-de-leão a que se sopravam as delicadas hastes e se viam voar na luz esplendorosa de verões intermináveis.

sábado, março 28, 2009

Intermission

Às vezes não sou melhor que isto, que esta saudade insuportável, esta nostalgia à flor da pele, dolorosamente lenta e doce, até à náusea, até às lágrimas não desejadas, nunca desejadas. Neste intervalo, neste breve intervalo em que me fazes falta, volto de novo àquela tarde de sol e vento e estou de novo onde estava, com o meu coração não solicitado de novo nas mãos estendidas, tão estupidamente vulnerável, tão pouco inteligente, ou sábio ou resistente, frágil. Alguém devia, para minha paz de espírito, banir de vez o grito das gaivotas em tardes de sol, bani-las para que nunca pudesse estar como estou agora, num intervalo entre a vida e as possibilidades não cumpridas. Mais uma vez.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Objectos (XIII)


Queria ser a brisa na cara da liberdade do primeiro dia de férias de verão e nunca passei dos beijos a evitar da tia chata. Os anos de desperdício e de tragédia que se podem concentrar numa só metáfora...

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Epipsychidion




Be this our home in life, and when years heap
Their wither'd hours, like leaves, on our decay,
Let us become the overhanging day

Percy Bysshe Shelley

Dentro de nós vivem todos os bocados não digeridos do passado, pequenas ilhas isoladas de onde ninguém sai, ninguém é salvo. Como bonecas russas até ao infinito, o que fomos antes fecha-se dentro do que somos agora, inalterável, irredutível, bonecas eternamente grávidas de desesperanças e desencontros. Somos como somos: dentro de nós habita a escuridão e, pontualmente, perdido num qualquer recanto intocável, um ou outro raio de dia de verão, de inocência, de fragilidade, que mais nos gela porque único- e inimitável.