quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Epipsychidion




Be this our home in life, and when years heap
Their wither'd hours, like leaves, on our decay,
Let us become the overhanging day

Percy Bysshe Shelley

Dentro de nós vivem todos os bocados não digeridos do passado, pequenas ilhas isoladas de onde ninguém sai, ninguém é salvo. Como bonecas russas até ao infinito, o que fomos antes fecha-se dentro do que somos agora, inalterável, irredutível, bonecas eternamente grávidas de desesperanças e desencontros. Somos como somos: dentro de nós habita a escuridão e, pontualmente, perdido num qualquer recanto intocável, um ou outro raio de dia de verão, de inocência, de fragilidade, que mais nos gela porque único- e inimitável.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Objectos(XII)




Não há mérito especial em sobreviver, o corpo sabe mais dessas coisas que nós, respira, segue, anda, reproduz-se e morre em milhares de células. Daqui a uns tempos nada de mim será aquilo que era então, todas as células de pele que tocaste foram-se dissolvendo em pó , partículas no ar que me rodeia e inspiro, sorvendo aquilo que fui e expulsando-o de novo num gás inerte, num circulo interminável. Mesmo as memórias se vão apagando em gestos esquecidos de partilha, toques mortos em voo, como pássaros a voarem contra janelas, contra todos os muros de impossibilidades. Sobrevivo. Há algum conforto em saber tudo o que me rodeia, na sua imensa vastidão de gestos partilhados e amores felizes, em ser vizinha e testemunha fugaz de coisas grandes e verdadeiras, mas é um conforto impessoal, uma espécie de dor surda e permanente de falhanços e más escolhas do negrume da depressão. Sobrevive-se através de gestos quotidianos de quase felicidade, numa linha ténue entre resignação e contentamento, não há mais para além disto e, mesmo se houvesse, quem nos levaria para longe daquilo em que nos tornámos? É tarde e fazemos da vida aquilo que podemos, não aquilo que queremos, nunca aquilo que queremos. Serve ainda a boca para beijos e o corpo para tudo o resto, servem ainda as mãos para dar, servem as palavras para articular pontes, mas é como se tivesse perdido o conhecimento do uso dos objectos e fossem desconhecidos hostis, como se tivesse perdido o uso da fala e dos sentidos e os visse, fechados, longe, sem aceder a eles senão em memórias fugazes e esperanças fúteis, tão fúteis daquilo que poderia ter sido e nunca foi senão em desapontamento.

terça-feira, janeiro 13, 2009



Pelo menos a infelicidade não é já activa e imperativa. Pelo menos os gestos quotidianos saem já com a graça líquida de todos os costumes automáticos. Nos dias cinzentos o frio entra pela pele desprotegida e branca que não se expõe e num lugar qualquer do mundo há outras coisas quaisquer. Pelo menos somos vizinhos da felicidade e por entre as paredes ouvimos-lhe os murmúrios, ou melhor, os rumores: ao fim da noite há sempre olhos rodeados de linhas como se estalássemos a caminho de uma quebra qualquer. Noutros lugares do mundo, tenho certeza, haverá recomeços e risos, a serenidade líquida da leiteira de Vermeer, por todos os inúteis séculos de esperas, tristezas e desapontamentos haverá sempre o amarelo -limão da luz capturado para sempre como numa teia brilhante de mentiras. Mas pelo menos não é já a infelicidade imperativa: empilhamos os segundos, como caixas, até enchermos o minuto até ao seu limite, recomeçamos outra vez. Sísifo mostra-nos, arrastamo-nos até ao limite e o abismo e depois recomeçamos outra vez até ao fim da hora.

domingo, janeiro 11, 2009

Objectos(XI)





Não sei se veja todas as voltas retorcidas dos nós que dei, por vontade, em mim mesma como uma tragédia ou como um acto de beleza em todo o esplendor da sua dolorosa complexidade.

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Objectos X


Caímos nas velhas falhas por hábito, caímos nos vícios do costume apenas como um gesto familiar, como uma rotina impensada, já. É já conforto, mais que qualquer outra coisa este caír nos velhos erros, aquilo que em nós chama o negrume aprecia-lhe a ironia, caímos nos velhos erros do costume de olhos abertos e não fechados.
Que falha é esta, falha fatal que sempre nos está arastando para os mesmos buracos, que estranha força? Só o hábito, nada mais que ele. Para o futuro quero novos caminhos.

terça-feira, outubro 28, 2008

Objectos(IX)



Mudei. As razões, perfiladas como soldados, fecham-se na sua própria imutabilidade, inacessíveis. As razões, como soldados esboroam-se na sua própria fragilidade de barro, nos rostos de passados e certezas distantes como galáxias. Do que sou agora são vestígios vãos, nada dizendo de si que não uma série de desejos insatisfeitos que se perderam, de dias gastos na modelação ideal de soldados sem armas, sem forças nem desejos de lutar.

quinta-feira, setembro 25, 2008

Objectos(VIII)


"How do you say goodbye to someone you can't imagine living without? I didn't say goodbye. [pause] I didn't say anything. I just walked away. "
My Blueberry nights

Há vezes em que a memória me prega partidas dolorosas e me esqueço de como as coisas são, de como têm de ser, e deslizo para a tão familiar, tão confortável ânsia, para a saudade. Para me curar tenho de recordar-me com mais força, com mais determinação de todos os lugares, todos os pontos da via-sacra que me doeram como cortes, como golpes casuais em dor e espanto. Aqui, recordo, o coração foi-me posto outra vez nas mãos, casual, gentil, descuidadamente. Ali era o lugar de todos os adeuses e ausências, de todas as horas solitárias em que amava sem palavras, além andei sem rumo e sem causa, embatendo nas paredes e nas impossibilidades , mais à frente me deram lições do meu próprio ridículo, lições deliberadas e claras, lições de como não servia nem podia ser. Regresso lá sem penas ou remorsos ou raivas. Cansa demais. Nenhum passo atrás poderá ser dado, nenhum caminho retraçado de formas diferentes, melhores, mais completas. Regresso a todos os lugares que estive para lembrar, para não deixar que a sépia das memórias e das ausências dilua ou apague os pormenores, faça esquecer as dores e as raivas e as lições, tão infinitamente importantes, que me moldaram no que sei hoje. Permito-me, uma vez por outra, um pouco de sentimentalidade. Como direi, uma lágrima é uma lágrima, uma lágrima, uma lágrima, uma lágrima, àgua e sal. Mas o mapa de todos os sítios, tatuado na pele, lança sombras longe, guia-me para fora dos buracos em que só uma coisa tão cega como a nostalgia, como a saudade, me lança.