sexta-feira, abril 20, 2007

Time Capsule



Enterro o meu coração numa caixa estangue. Aos que o encontrarem no futuro a mensagem: usado, quase novo.

segunda-feira, abril 16, 2007

Nós



William Holman Hunt , The lady of Shalott

"There she weaves by night and day
A magic web with colours gay.
She has heard a whisper say,
A curse is on her if she stay
To look down to Camelot. "
Alfred, Lord Tennyson

Teço e espero, teço e espero-te isolada na minha ilha. Se olhar, perderei tudo. Se te olhar, terás apenas um breve olhar de pena pelo meu gesto. E no entanto, és o fio de cor vermelha, dolorosa, que me alegra a teia dos dias. E no entanto, por ti rasgaria os fios que me prendem à realidade e partiria, para sempre.

domingo, abril 01, 2007

Febre



Amo-te assim como quem torce por uma equipa de futebol, sabes como é, não é definitivo, não vai morrer ninguém se perder o campeonato, vai só doer um bocado durante um tempo e depois acabou-se tudo, a vida continua e também a minha vida, também eu, até tudo passar e ficar só aquela marca mental da derrota. Não é como se a vida acabe, como se eu me encoste a um canto muito escuro e muito doloroso para chorar, a vida continua, alguém compreenderia esta minha derrota assim, como morte de homem, como uma coisa definitiva? Ah não, a vida continua, e haverá mais dias e mais sóis e estações e despedidas e eu continuarei assim, a viver, apesar da marca da derrota, apesar de ter perdido tudo,de te ter perdido e amar-te-ei como quem ama uma equipa de futebol, as cores correm fundo, como uma tribo, mas tenho de continuar viva, continuar funcional.
Como é possível a vida continuar, perguntam-se uns, como é possivel sem a nossa tribo, a nossa identidade? Tu, que és a minha tribo, um bocado de mim, tu que és as cores do meu coração mostras bem como é possível. Vivemos depois de ter perdido o campeonato e as cores com que nos vestimos estarem no chão esquecidas e pisadas, muito depois do grito de força e de vitória se desvanecer no ar deixando atrás de si apenas um ténue rasto de agonia, um levíssimo vestígio de desespero.
Vivemos muito depois do apito final como vivemos na esperança da época seguinte, do próximo momento e do golo que se segue, de alguém que venha e nos salve e nos resgate do sítio escuro e doloroso onde nos dobrámos para chorar a derrota, mais uma, sempre.

quinta-feira, março 22, 2007

Eros



Não, assim não te quero, não se não me quiseres como eu, com a pele em febre e os nervos em corda, não te quero através de portas e de muros e de dias.
Não quero que venhas se não vieres comigo, se não formos os dois até ao fundo desta febre, desta fonte, deste fundo.
Vai, não me toques. Não se o teu toque não for como é para mim, o amor feito fogo, estendido em raio de calor até ti.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Antinoo




Nenhuma face será mais amada que a tua. Mesmo depois do adeus, desse longuissimo e definitivo adeus que te estarei dizendo sempre, serão os seus amados traços a encher-me de espanto e de tristeza, será a tua ausência a encher-me até não caber mais nada nem ninguém, o teu gesto fantasma a tocar-me ainda.

Amar-te-ei para sempre, mesmo para lá da vida, mesmo para lá do amor, mesmo quando a paixão não for mais que cinzas e depois nem isso, será o teu amado rosto ainda a povoar-me, como um talismã, a única divindade finita que adorarei jamais. Assim é o amor que nos marca, a carne viva, que nos deixa indeléveis os sinais, como aquele teu olhar primeiro num dia longínquo, como aquele teu rosto cheio de sombra, de olhos baixos, a ponto de me cegar. Nunca sobrevivemos ao amor, nunca.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Viagem



Para a Cookie, com esperança

Por todos os sítios que passo procuro o traço que me possa levar a casa, procuro o lugar onde descarregar e abrir a alma, o conforto da luz acesa para mim. Poderás tu, com paciência, abrir-me e descobrir-me como as romãs, poderás tu abrir-me e descobrir-me como as coisas secretas e fechadas?

O meu coração é uma casa fechada, poderás encontrar-lhe a chave e morar nele? As minhas viagens têm o tamanho da minha solidão, procuro a familiaridade de um sítio onde pousar as minhas mágoas as minhas dores, qualquer coisa que me use o coração e o faça funcionar, qualquer coisa que o justifique. Procuro a casa onde descarregar as mágoas, a tua casa.

Poderás tu abrir-me os recantos secretos de romã, poderás tu abrir-me e explorar-me como os aventureiros às ilhas? Construo a minha vida na espera dessa chave, da tua chave. E viajo sempre a caminho de casa.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Brief Encounter


Para a Su, irmã da minha alma


Se eu pudesse voltar atrás até ti, se pudesse mudar maré de tempo e dor que nos afastou, quereria ir até ao momento em que começaste a afastar-te de mim, o momento exacto em que começaste a dizer-me o princípio deste longo, longuíssimo adeus. Diz-me, tu, nesse momento, como fizeste para desatar o amor? Como se faz para desamar, deixar o amor partir sem o segurar, sem o segurar cegamente, apesar de tudo?Se pudesse voltar a esse momento, ao preciso momento em que te afastavas de mim, olhar-te-ia mais longamente que o fiz então, o teu corpo amado de costas voltadas para mim, a afastar-te resolutamente, e para sempre, daquilo que tínhamos juntos. Talvez se me tivesse apercebido do definitivo de todas as coisas te teria dito adeus mais facilmente, com menos dor, enquanto o meu corpo guardava ainda o calor do teu, o cheiro do teu, a memória táctil da tua pele enquanto te amava ainda, livre de todas as dores. Talvez fosse mais fácil este longuíssimo adeus que te digo, com menos fios de dor e de raiva e de fúria para desatar e deixar cair.Diz-me, tu que te afastaste tão resolutamente, como fizeste para desatar os nossos laços, diz-me, onde começaste a dar-me o adeus que seria definitivo, em que ponto te começaste, lenta e seguramente a afastar de mim? Como fizeste para acabar assim o amor, fechá-lo como uma torneira, sem gotas que se arrastam?Se pudesse voltar atrás, aquele preciso momento em que estava ainda cheia de ti, de nós, dir-te-ia o adeus que o nosso amor merecia, sem choros, sem dores, não este monstro de silêncios e dúvidas que depois foi, não este buraco negro de ausência em que todas as coisas boa que tivemos se esgotaram e desapareceram.Tu que te afastaste tão seguramente, diz-me, como se acaba o amor, como se faz? Como se cortam os laços?